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O debate anda parcialmente interditado no que se refere ao fenômeno das mudanças climáticas. Mesmo quem discorda do estudo de descarbonização feito em Oxford deveria dizer: bem-vindo seja o contraditório no processo científico.

 

Carlos de Mathias Martins, Chief Executive Officer da BlockC

 

No dialeto ítalo-românico praticado na região de Bolonha na Itália, o termo “umarell” é utilizado para descrever cidadãos do sexo masculino recém-aposentados que passam o dia observando o avanço de obras da construção civil, tal como a pavimentação de ruas e buracos. O típico umarell está sempre bem vestido e mantém as mãos para trás em sinal de respeito aos trabalhadores dos canteiros de obra. O típico umarell também é conhecido por palpitar sobre a qualidade do cimento, a mistura da areia, a roda da betoneira, o capacete do mestre de obra… o umarell tem opinião sobre tudo e sobre todos no que concerne a pavimentação de um buraco.

Em abril deste ano, a Smith School of Enterprise and the Environment, da University of Oxford, Inglaterra, teve o seu momento umarell ao publicar um estudo sobre a descarbonização da matriz energética global com previsões alvissareiras acerca da indústria de energia renovável.

Não satisfeitos em palpitar sobre mudanças climáticas, os autores do documento, na maioria oxonianos, também se aventuraram a comentar temas complexos como equidade de gênero, justiça social, combate à covid-19 e, para surpresa de ninguém, refutar a geração de energia nuclear. Enfim, o estudo descreve um cenário denominado “decisive transition“ que considera a penetração acelerada das fontes renováveis na matriz energética global em substituição aos combustíveis fósseis.

A tese central dos autores estabelece que o avanço tecnológico levará à queda vertiginosa dos custos de geração de energia solar e eólica e do armazenamento de energia em baterias e hidrogênio. De acordo com os autores, os modelos de análise do IPCC (painel de mudanças climáticas da ONU) e da IEA (agência internacional de energia) não conseguem captar o ciclo virtuoso originado pela eletrificação da matriz energética global e consequentemente o aumento da demanda por eletricidade que – segundo o estudo – será suprida por energia renovável cada vez mais barata.

“O enfrentamento da emergência climática não pode ficar para a próxima geração de cientistas.”

Lei de Brandolini

O cenário de descarbonização proposto no estudo de Oxford é bastante arrojado e os autores parecem muito seguros em refutar os relatórios publicados pelo IPCC e pela IEA, mas, de acordo com o finado escritor Christopher Hitchens, um dos oxonianos mais famosos da minha geração, o ônus da prova sobre a veracidade de uma alegação recai sobre quem faz a alegação.

Ou seja, não é responsabilidade do IPCC, nem da IEA, refutar as teses do estudo de Oxford. Mesmo porque, de acordo com a Lei de Brandolini, é muito mais difícil refutar uma estultice do que produzi-la e, portanto, o mundo segue repleto de estultices jamais refutadas. Não me entendam mal. Não tenho como avaliar os modelos propostos pelo estudo de Oxford e, portanto, seria leviano da minha parte refutá-los.

É fato entretanto que a University of Oxford perdeu muito do seu prestígio ao negar um título honorário a Margareth Thatcher, a oxoniana mais famosa do pós-guerra e a primeira mandatária relevante a alertar a humanidade sobre o aquecimento global. A vergonha não para por ai, visto que a mesma universidade concedeu tal alcunha ao ex-presidente americano Bill Clinton que se notabilizou por proferir estultices difíceis de refutar tal como fumar sem inalar. Mas eu divago.

De funeral em funeral

Enfim, meu artigo não é contra os pesquisadores de Oxford ou a favor do IPCC, e sim em defesa do contraditório no processo científico. E obviamente a comparação dos tiozinhos umarell com os pesquisadores de Oxford é uma hipérbole. Meu objetivo neste artigo é chamar a atenção para um dilema que me aflige. Em diversos aspectos observo o debate científico parcialmente interditado no que se refere ao fenômeno das mudanças climáticas.

E esse impasse não é devido à recente polarização da humanidade. Já no início do século passado, o alemão Max Planck laureado com o prêmio Nobel de física em 1918, atribuía o progresso da ciência às novas gerações de cientistas que estariam propensas a refutar verdades científicas estabelecidas. Segundo Planck, a ciência avança de funeral em funeral. O enfrentamento da emergência climática não pode ficar para a próxima geração de cientistas. Se depender de mim, forza a todos os umarell de Oxford!

*Texto originalmente publicado no MIT Sloan Management Review Brasil

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